Marcelo é a manta de retalhos que é Portugal

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Como poderia não ser o presidente se encarna todo o país?

Marcelo é aquele tipo que lá do seu canto conquistou o mundo.

Marcelo venceu as eleições com “um táxi e uma marmita” (vide Expresso), derrotou o Adamastor com uma casca de banana e, por último, fornicou a filha do marajá de Goa só porque lhe piscou o olho.

Marcelo é um homem de afectos, é um bon-vivant, é o convidado ideal para o almoço de domingo.

Marcelo é magro e a tia Chica sempre que o vê diz “estás mais magro” e esquece-se de que é o presidente da república quando lhe põe a nota de 5 euros entalada à força no punho.

Marcelo é um cuidador. Marcelo é um chá de camomila com mel. Poderá até ser uma papa Cerelac.

Marcelo é levemente fascista, levemente comunista, levemente conservador, levemente progressista. Marcelo tem laivos sebastiânicos.

Marcelo é o minotauro do Labirinto da Saudade.

A Marcelo seria permitido que fizesse o crisma na festa do Avante.

Marcelo fica tão bem com o Chico Chapas a caçar passarinhos nos arrabaldes de Lisboa como em Frankfurt com a chanceler e a estátua do Euro gigante.

Marcelo desenrasca-se. Marcelo é o neto que foi estudar para Lisboa e “parece que vai longe, o catraio”.

Marcelo tem dentro dele todos os sonhos do mundo. Marcelo “vai ter tudo”.

Marcelo não tem 1ª dama. Marcelo é um marialva fanfarrão e é um beato à beira da santificação.

Marcelo é uma onda do Guincho a confluir para a baía de Cascais.

Marcelo é a pasta medicinal Couto, é um artista português.

Marcelo vem cicatrizar as feridas. É unguento, pomadinha, creme Barral.

Mas, acima de tudo, Marcelo é um professor. Lá da sua cátedra do Direito de Lisboa, veio no 1º dia dizer-nos onde está o Bem e onde está o Mal, em solene eucaristia universitária. E é o 3º professor desde 1926.

Marcelo é 3, é a conta que Deus fez.

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Esboço para um fim-de-ano ou princípio-de-livro

cigarro laranja

Anunciavam o fim do bom tempo e a vinda dum sistema frontal.

Eu percorria o peito com as mãos e descobria que o meu coração não tinha porta USB.

Já o granizo se estatelava na calçada quando decidi fugir, assustado, porque era ano bissexto e o apocalipse é de certeza um gajo supersticioso.

Pelo caminho também percebi que na minha cabeça não havia firewire e que o mais parecido com bluetooth era o meu 2º molar à esquerda e em baixo, que tinha sido chumbado à moda antiga.

Assim ia caindo o céu no meu toutiço, sem Toutátis que me valesse.

Fui acabar no Cais das Colunas, onde só as gaivotas deram por mim.

Nessa tarde, em que me julgava incomunicável, ainda te encontrei nas ruas da Baixa, já em modo afterhours. Creio que conversámos, mas só me lembro da ponta do teu cigarro que laranjissimamente quebrava o azul profundo de sol-já-posto onde tudo, incluindo a tua cara, se afundava.

Devemos ter-nos separado na estação do Rossio, já o mundo tinha acabado por esse dia. Tu para o teu retiro espiritual suburbano, como lhe costumavas chamar, e eu para qualquer canto ameno onde me pudesse ligar de novo à ficha.

 

as mortes

morte

Há a grande Morte, aquela inevitável, quer a aceitemos quer não, à volta da qual todas as religiões foram construindo o seu circo.

Depois há as pequenas mortes. Ao contrário da Outra, nestas podemos mexer enquanto acontecem. Também as podemos escolher: “Quero agora um pouco de morte” ou “desta feita preferia não morrer, se não te importasses”.

São mortes que às vezes nos aparecem depois de um domingo com sol, ao virar da esquina. Mortes que andam sempre connosco no bolso, esquecidas, até que uma mão distraída lhes toque. E podemos decidir: “quero esta morte já”. Depois contorcemo-nos, agonizamos, mas o corpo continua a enfrentar o tempo. Logo a seguir, se quisermos, encheremos esta morte de coisas. Poderemos atafulhá-la de gente, flores, remédios…

Às vezes pensávamos que era uma pequena morte, mas sai-nos uma morte maior dentro dessa. E depois é demais e já não se aguenta uma morte assim e até podemos desejar que a Morte grande venha para acabar com esta mais pequena.

Há mortes que nos mumificam.

Aquela senhora, por exemplo, teve uma morte e, teimosos, os seus pensamentos não quiseram apodrecer. Como aqueles santos que grotescamente algumas capelinhas exibem em aquários. Aquela senhora carrega uma morte mumificada. Aqueloutra não. O que lhe ia dentro apodreceu e tornou-se altamente fértil. Mas antes de morrer tirou uma foto a este seu corpo à beira do abismo e colou-a na parede. A sala desta senhora está coberta de fotos, antes de cada uma das mortes. Aquele senhor não. Morre, mas nunca se lembra que morreu. E por isso morre tantas vezes, não compreende porquê.

Há quem morra e convide a morte para uma refeição. E conversa com ela à mesa. E sonda-a com pequenos olhos corajosos: “que me queres dizer tu, morte, desta vez?”. A morte às vezes fala, outras vezes ignora-nos ou então levanta-se e bate-nos, violentamente, e essa é a sua única forma de comunicar.

Podemos levá-la a sair, trazê-la sempre num auscultador. Podemos agarrá-la e atirá-la às trombas de alguém. É a nossa morte, fazemos o que quisermos dela. Podemos ir buscá-la à cave no aniversário e trincar as velas com os seus dentes.

A morte diz muitas vezes assim: “Era uma vez…” e repete “Era uma vez…”. Conta-nos a história ao ouvido e depois põe-lhe o ponto final. A morte é o fim da aventura. A morte pode ser apaixonarmo-nos e acabar-se a viagem aí ou pode ser desenamorarmo-nos e lançar-se a vertigem doutro caminho.

O gesto revolucionário

calças rasgadas

Não é novo, mas anda por aí uma moda feminina de usar calças rasgadas. Antigamente, as calças compravam-se perfeitinhas saídas da loja e, em acto de rebeldia, rasgavam-se da forma que se quisesse, exibindo ao mundo uma transgressão.

Hoje em dia, essa transgressão foi incorporada pelas marcas. Assim, estas calças rompidas que hoje vemos por aí são cuidadosamente desenhadas para que maquinalmente lhes seja imprimido o defeito. Cabe ao indivíduo apenas comprar o objecto, é o acto que lhe é pedido, em relação ao resto pode estar descansado porque já vem feito.

Este processo é natural. O mercado absorve a tendência e devolve-a em produto já concebido. As próprias calças de ganga, inicialmente vestuário de trabalho, passaram a ser moda e depois disso popularizadas pela indústria. O seu simbolismo foi engolido e depois, lentamente, perdendo o valor.

Se não houver um movimento contínuo em sentido contrário, um desafio da criatividade e da independência ao mecanismo tonto do marketing, corremos o risco de nos tornarmos um pastiche de nós próprios, em loop até ao infinito.

Uma sugestão: Ousem comprar essas calças rasgadas e aplicar-lhes uma insurrecta cosedura. Remendem insubordinadamente o golpe da Máquina!

Trust we can believe in

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Pegando num post d’A Destreza das Dúvidas sobre a ubiquidade da palavra “confiança” no marketing político desta campanha eleitoral, queria reflectir um bocadinho. Certamente não será por acaso que as equipas de comunicação dos partidos escolhem esta palavra para a … Continue reading

O posicionamento moral da Alemanha

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Ainda muito recentemente, no seio da Europa, a Alemanha agiu de uma forma que muitos consideraram abusiva, utilizando a sua posição hegemónica para manter benefícios próprios e prejudicando um povo inteiro. Falo obviamente da crise grega e de uma conduta germânica representada pelo austero Schäuble.
Mas nos últimos tempos a questão grega perdeu o prime-time e chegou a crise dos migrantes. Mais uma vez a Alemanha apareceu em destaque, mas agora, afinal, como sendo o último bastião da solidariedade (cheguei até a ver mensagens de boas-vindas aos refugiados escritas por claques de futebol).
Será a coexistência destes comportamentos absurda e contraditória, somente compreensível como uma política de gestão de imagem (“não somos desumanos, vejam lá o altruísmo de que somos capazes”)? Ou haverá algum sistema moral onde tudo se encaixe? Não tenho resposta para isso, mas com a Alemanha devemos esperar comportamentos alicerçados numa substância. Uma possibilidade é a de que Merkel se guie por uma lógica luterana, fiel aos mercados sendo ao mesmo tempo profundamente cristã (os gregos, no fundo, viram-se ajudados pelos alemães a aproximarem-se da salvação da sua alma através da penúria, pagamento dos seus pecados). Não esqueçamos que a chanceler é filha dum pastor luterano e estas coisas da infância vão ribombando praticamente até à cova.
Por esta via estamos, ao menos, ainda longe do paganismo nazi. Resta só saber até onde estão os alemães dispostos a ir com Merkel.

O último olhar

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A rainha Zenobia olha pela última vez para Palmira (quadro de Herbert Schmalz, 1888).

O olhar de Zenobia é também o de milhões de sírios, que por estes dias deixam o seu país, fugindo da guerra.

É o olhar de todos nós que vemos submergir o Mediterrâneo da cultura, civilização e coexistência. E cada um que morre na sua bacia instila um pouco mais de medo e barbárie na água salgada.